Vivendo como quem sonha

Letícia Campos
6 min readOct 1, 2022
Foto tirada por Dany Dequidt @danysdequidt

Você já teve a sensação de estar sonhando quando algo muito bom acontece ou quando algo que você desejava muito, enfim se torna real? Aquela sensação de se ter um cabide na boca, por não conseguir parar de sorrir? Eu já, muitas vezes, na minha conversão, em viagens, em encontros com amigos que há muito não via, em uma sessão de fotos com a minha família, e tantas outras situações.

Quando li o salmo 126, percebi que o povo de Israel possuía este mesmo sentimento. Após anos de cativeiro na Babilônia como estrangeiros, escravos, servindo a vontade de um rei estranho em uma terra estranha, a liberdade chegou. Mal poderiam acreditar no que havia feito o Senhor.

“Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha.”

Salmos 126:1

A alegria era tamanha que, no meio da romagem, seguiam a testemunhar o que Deus havia feito a todos ao seu redor; todos que ouviam e viam tamanho milagre, reconheciam que, de fato, o Senhor havia feito grandes coisas por aquele povo.

“Então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua, de júbilo; então, entre as nações se dizia: Grandes coisas o Senhor tem feito por eles.
Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós; por isso, estamos alegres.”

Salmos 126:2,3

Contudo, quando chegam a terra, havia muito a fazer, e rapidamente se esquecem do que havia feito o Senhor. Os dias gloriosos pareciam estar no passado, e diante deles, haviam muitos desafios. Estavam de volta à terra prometida, mas a vida voltou ao normal; haviam dificuldades para reconstruir o templo, o desânimo invadiu seus corações e as preocupações ocuparam suas mentes. Na distração da vida corriqueira, a ingratidão ganha lugar, a mente encontra dificuldade em lembrar da esperança a que foram chamados, e os olhos veem de forma cada vez mais embaçada o tamanho milagre que haviam acabado de experimentar. Em meio ao desânimo e esquecimento das maravilhosas coisas que Deus havia feito, a alegria se esvai e o sonho se acaba. O Senhor havia restaurado a sorte deles, mas poxa, ainda faltava tanta coisa…

Diante deste cenário, parece inevitável não pensar que o povo voltaria a cometer os mesmos pecados que cometiam antes de irem para a Babilônia e durante a Babilônia, e foi o que aconteceu. Será mesmo que anos de cativeiro não ensinaram nada? Experimentam um milagre deste e ainda voltam a cometer os mesmos erros? Rapidamente foram se enfraquecendo na fé do Deus que os havia libertado; já não há motivos para se alegrar, pois as dificuldades são muitas.

Diante do que viam, o sonho se converteu em pesadelo. Não haviam frutos de alegria, de arrependimento ou justiça, tudo era seco. Seco como a região do Neguebe, mencionada pelo salmista no verso 4. Ele compara esse deserto no sul da judeia às pessoas que perderam a alegria da libertação. Assim como havia sequidão, rachaduras e buracos no deserto em lugares que costumavam ser riachos, assim estava o coração daquele povo. Eles deixaram que as circunstâncias deste mundo, e os desafios presentes fossem mais importantes do que a salvação recebida. Foram manchados pelos pecados, abrindo rachaduras e buracos no coração.

E neste contexto, é feita uma oração:

“Restaura, Senhor , a nossa sorte, como as torrentes no Neguebe.”

Salmos 126:4

Ali, naquela região seca do Neguebe chovia, e todas as porções secas se enchiam de água e formavam riachos outra vez, transbordando e regando todo o deserto. Pouco antes das águas chegarem, o povo semeava, e o salmista ora para que assim Deus fizesse a mesma coisa com eles, assim como hoje podemos orar para que ele faça a mesma coisa conosco quando as dificuldades da vida parecerem obscurecer a glória da salvação.

Ainda que deveriam semear no deserto sem saber se a chuva viria, em Deus havia a certeza que poderiam semear na terra seca, pois ele mesmo mandaria a chuva. Eles poderiam olhar para trás para o que Deus fez e se alegrar, ao passo que por oração e fé poderiam olhar para frente para o que Deus prometeu, o que ele faria, e se alegrar.

No fim, esse é o segredo da alegria que o Senhor nos promete em meio as dificuldades, esse é o segredo de viver como quem sonha, se lembrar e testemunhar o que Deus fez enquanto espera nele o cumprimento de suas promessas. Pois, a grande verdade é que olhamos para este salmo e constatamos que ele também fala de nós, e o cativeiro do qual Deus nos libertou foi muito pior do que qualquer cativeiro geográfico, econômico ou político. O cativeiro do qual fomos libertos, foi o da morte e condenação eterna, da escravidão do pecado. O motivo de vivermos tristes é não nos lembrarmos da tamanha libertação que o Senhor nos deu. Não podemos deixar de caminhar rumo à terra que ele nos prometeu sem cantar e contar suas maravilhas, as grandes coisas que ele fez por nós. Ainda que estejamos a nos sentir inúteis, secos, sem vida, temos a presença do espírito de Deus que por meio de sua palavra e ação, pode nos inundar outra vez da alegria e do conhecimento de Deus; podemos orar para que o Senhor regue a nossa alma e corações secos, que ele restaure a nossa sorte.

Ainda que estejamos enfrentando situações de dor e sofrimento, não deixemos de semear, pois em Deus nenhuma semeadura é em vão, ainda que feita no terreno seco, a chuva virá e o que era seco, se transformará em um manancial. Deus nos restaurou mas seguimos orando para ele nos restaurar. Oramos agradecidos pelo o que ele começou em nós e oramos alegres e em esperança que ele completará essa obra, e o resultado serão feixes de alegria; as chuvas virão sobre este terreno seco e colheremos os frutos. Muitas vezes, a única água que o solo seco verá serão nossas lágrimas, contudo, nós sabemos em quem temos crido, e por isso nosso coração se anima.

“Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão.
Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.”

Salmos 126:5,6

O grande desafio se torna, então, contar as bençãos que temos alcançado por meio de Cristo diariamente. Se começamos a basear a nossa alegria em coisas materiais, pessoas ou qualquer outra coisa que não seja Cristo, vamos viver tristes, daremos um péssimo testemunho e reduziríamos a gloriosa salvação a algo sem importância

Vamos seguindo o caminho, semeando e chorando, se alegrando e contando, porque Cristo já fez coisas grandiosas por nós. A bíblia diz que somos o povo mais feliz da terra porque já temos o mais importante, a salvação em Cristo Jesus. O crente deve ser uma referência de alegria para o mundo caído. As pessoas devem olhar para nós e se surpreenderem com a alegria que temos em Jesus nas situações mais adversas das nossas vidas. No maior dos sofrimentos, maior deve ser a nossa alegria, confiança e esperança; mais o nome de Cristo é glorificado em nós quando estamos contentes e satisfeitos nele, é semear, às vezes chorando, mas com a certeza da colheita, não tem como não se alegrar.

Se Cristo é e nós somos Nele, podemos voltar a sonhar e perceber que se trata muitas vezes de um exercício de memória. Quando as coisas quiserem te impedir de estar contente, lembra da sua conversão, se lembre do que sentiu quando foi chamado pelo Senhor para fazer parte de sua aliança eterna. Lembre do seu coração pulsando por Cristo, da sua alegria e do seu sentimento de não conseguir acreditar no que estava acontecendo.

Minha oração é que sigamos todos os dias das nossas vidas maravilhados com a tamanha graça do Senhor, relembrando sua encarnação, sua vida, sua morte, seu sacríficio, sua ressurreição, sua ascensão e glória eterna; relembrando a alegria da salvação e orando para que ela seja restaurada em nós todos os dias. Esse é o verdadeiro sentido da alegria, e é assim que viveremos como quem sonha, afinal, “grandes coisas o Senhor tem feito por nós, por isso estamos alegres.”

Fontes:

https://www.youtube.com/watch?v=fTDXdN1VFyw&t=100s

Veja esse vídeo no youtube e perceba o milagre e a maravilha que são as torrentes do Neguebe no momento apropriado.

Escute a música “Salmos 126” do Projeto Sola, “The Lord has done great things (Psalm 126)” do Coram Deo church; e assista essa pregação do Rev. Augustus Nicodemus: https://www.youtube.com/watch?v=gd3wzBO79Js&t=5s

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